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Educação financeira para crianças influencia famílias e professores

Educação financeira para crianças influencia famílias e professores

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Cerca de um milhão de estudantes no Brasil já têm contato com o tema, segundo associação; para especialistas, poupar promove atitude sustentável

O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2017 | 15h40

Os alunos do 5º ano da Escola Municipal Eladir Skibinski, em Joinville, no norte de Santa Catarina, já não gastam toda a mesada em balas, chiclete e chocolate. Há dois anos, a direção da unidade começou a ensinar educação financeira em meio às aulas de Matemática, Ciências da Natureza, História e até Português. Hoje, a sala está cheia de exemplos de quem guardou dinheiro, criou fontes de renda e se planejou para comprar com o próprio dinheiro: livros, tênis, roupas ou uma poupança para viagens e cursos. Nada mal para crianças de dez e onze anos.

A escola faz parte de um universo que cresceu nos últimos anos. Cerca de um milhão de alunos no País já têm aulas de educação financeira na escola básica atualmente, segundo estimativa da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin). Esse crescimento ocorreu principalmente após a aprovação da Estratégia Nacional de Educação Financeira, em 2010, que definiu regras para o apoio do poder público e de organizações da sociedade civil ao tema.

Na escola municipal em Joinville, as crianças aprendem o que é orçamento familiar, fazem poupança, simulam compras em supermercado na sala de aula, realizam feiras de troca com brinquedos usados e participam de ações de solidariedade. A professora Carla Pawluk, que orienta as turmas de 5º ano, se preocupa em conectar o planejamento financeiro com o tema do desenvolvimento sustável. Com isso, os alunos trocam roupas e livros que não usam mais, repensam seus hábitos para consumir menor, reciclam e, assim, também poupam dinheiro. A poupança já serviu até para uma turma se mobilizar e comprar uma cesta básica para um aluno que passava por dificuldades, sem comida em casa.

“Nossa escola fica num bairro carente, e as famílias de muitos alunos trabalham com coleta de reciclados”, conta a professora. “Já temos alguns projetos voltados para a sustentabilidade, então envolvemos o tema na vivência deles, na realidade da escola.”

Os alunos são estimulados a poupar uma parte da mesada para passeios que a escola promove. No ano passado, um dos estudantes informou a professora que, sem dinheiro, não poderia ir à Feira do Livro na cidade. Mas o pessimismo durou pouco. Foi à escola no dia seguinte com uma coleção de chaveiros na mochila e vendeu quase tudo aos colegas e professores. “Durante a semana, ele conseguiu dinheiro para a passagem do ônibus e ainda sobraram R$ 65, que ele usou para comprar 6 livros”, diz Pawluk.

“A educação financeira fecha um ciclo quando a gente fala de sustentabilidade, porque ele outorga autonomia a quem aprende”, diz a superintendente da Associação de Educação Financeira (AEF-Brasil), Cláudia Forte. A instituição oferece um plano pedagógico para o tema — com livros, sugestão de atividades para diversas disciplinas e treinamento de professores — adotado em cerca de 3 mil escolas no País. “A educação financeira está presente, de alguma forma, em oito dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, ela permeia desde a erradicação da pobreza até inclusão no mercado de trabalho. Só isso já deixa evidente como é importante ter esse tema como pilar no projeto de cada nação”, argumenta Cláudia.

Reviravolta. Observando a transformação no comportamento dos seus alunos de seis a 11 anos, a pedagoga Andrea Soares resolveu aplicar as aulas de educação financeira em sua própria vida. Há 13 anos trabalhando como professora na escola CETA, na zona sul de São Paulo, Andrea estava endividada quando começou a dar aulas sobre o tema.

Após as primeiras aulas com as crianças, a professora se interessou cada vez mais pelo assunto. Em 2016 ela fez um curso de pós-graduação em educação financeira, o que a colocou em contato com profissionais que a ajudaram a repensar sua relação com o dinheiro. Em cerca de três anos ela saldou suas dívidas e conseguiu guardar dinheiro para comprar um apartamento.

“Foi decisivo quando eu percebi que as crianças estavam mesmo guardando dinheiro, e eu comecei a refletir porque elas conseguiam fazer isso e eu não. Perguntas que eu fazia em sala às crianças, comecei a fazer para mim mesma”, conta Andrea. Ela também percebeu que a mudança influenciou o dia a dia da família de seus alunos. “Os pais me trazem relatos de que os filhos cobram isso deles. Quando vão comprar material escolar, são os filhos que colocam que certas coisas não é necessário comprar.”

Família. De acordo com uma pesquisa da Abefin, feita em parceria com o Instituto Axxus e o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) do Instituto de Economia da Unicamp, 71% dos alunos que têm aulas sobre educação financeira ajudam os pais a fazerem compras conscientes. Já nas famílias que não têm filhos educados para o tema, a cooperação na hora da compra não existe, segundo a pesquisa apresentada em fevereiro.

Para o estudo, foram entrevistados 752 pais e mães, com filhos entre quatro e 12 anos, em cinco capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Goiânia e Vitória. Cerca de metade dos entrevistados tinha filhos em escolas que oferecem educação financeira. Os entrevistados cujos filhos recebem educação financeira também responderam que conseguiriam manter seu padrão de vida por mais tempo caso ficassem sem salário. Nesse caso, 73% respondem que poderiam manter o padrão por até seis meses. Entre famílias que não têm filhos estudando o assunto, só 53% têm uma avaliação tão otimista. Outros 44% das famílias sem educação financeira dizem que o padrão de vida duraria um mês em caso de desemprego – enquanto só 2% do outro grupo tem avaliação tão pessimista.

“A escola é o grande celeiro de uma transformação na sociedade”, diz Reinaldo Domingos, presidente da Abefin e da DSOP Educação Financeira — empresa que oferece materiais didáticos sobre o tema do maternal ao ensino médio, especializações e treinamento de professores. “Temos que construir cidadãos empoderados financeiramente para a sustentabilidade e para o equilíbrio entre o consumo e o sonho. A prioridade número um é as pessoas serem felizes com o que a educação financeira pode proporcionar.”

Para ler a matéria no Estadão clique aqui.

Coordenação e Execução dos Programas
MEMBROS DO COMITÊ NACIONAL DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA (CONEF)




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