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Estadão: EDUCAÇÃO FINANCEIRA AINDA NÃO É REALIDADE NAS SALAS DE AULA BRASILEIRAS

Estadão: EDUCAÇÃO FINANCEIRA AINDA NÃO É REALIDADE NAS SALAS DE AULA BRASILEIRAS

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Crianças sentadas em carteiras, em uma sala de aula, olhando para o professor, que está ao lado de um telão. Ao fundo, há uma lousa.

Escola Estadual Cesar Martinez é uma das que estão na frente: aulas sobre o tema no ensino fundamental | Foto: Roseli Dutra/Divulgação

 

Temática já é obrigatória para o ensino fundamental e deve entrar na nova Base Nacional Curricular do ensino médio
FELIPE SIQUEIRA E ISADORA DUARTE

 

No ensino fundamental, a educação financeira já é lei desde dezembro de 2017. E, em breve, o tema deve entrar no currículo do ensino médio, já a Base Nacional Comum Curricular propõe que assunto seja incluído de forma interdisciplinar. Mas a realidade é que essas aulas ainda não chegaram à grade da maioria das escolas do Brasil e muitos dos professores não tiveram treinamento para trabalhar o assunto. Quem sai prejudicado é o aluno, que perde a oportunidade de aprender a controlar seus gastos ainda na infância, algo que é essencial para ter uma vida financeira mais saudável no futuro, segundo especialistas.

A situação é mais grave nas regiões Centro-Oeste e Nordeste, onde estão, respectivamente, apenas 7% e 8% das escolas do País que trabalham o conteúdo, segundo a Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF Brasil). O que é uma pena, na opinião da superintendente da entidade, Cláudia Forte. Ela ressalta que o ensino é ainda mais importante em regiões carentes. “Nesses locais que percebemos a semente frutificar.”

A Região Norte figura no topo do ranking do levantamento realizado em abril deste ano. As atividades de seus colégios representam 33% do total nacional. Só que o índice é puxado pela experiência do Tocantins, Estado considerado modelo no ensino de educação financeira. O Sul aparece com 32% e o Sudeste, com 20%. O mapeamento da AEF é de participação voluntária, enviado à rede de 25 mil contatos da associação e contabiliza as iniciativas ligadas ou não à educação formal. O Ministério da Educação (MEC) afirma não ter um balanço sobre o tema, já que cada Estado tem autonomia sobre os currículos de suas escolas.

O reflexo da falta de ensino do tema fica claro no teste de cultura financeira realizado pelo  Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Dos 15 países pesquisados, o Brasil teve o pior desempenho no estudo divulgado em maio de 2017 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Cinquenta e três porcento dos alunos brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo de conhecimentos financeiros, atrás de vizinhos como Chile (38%) e Peru (48%). Só 3% dos brasileiros atingiram a pontuação mais alta do teste.  A China liderou o ranking.

Não é que nada tenha sido feito para melhorar este quadro. Mas o processo é lento e está longe de atingir a maioria dos Estados. Desde 2010, o País vem desenvolvendo a Estratégia Nacional da Educação Financeira (ENEF), que levou material pedagógico e treinamento a professores de 3.800 escolas públicas. Em cada colégio, três educadores foram capacitados para ministrar as atividades, que vão desde aulas a oficinas. Atualmente, Minas Gerais, Paraíba e  Rio Grande do Sul estão em fase de desenvolvimento dos polos de educação financeira, que são estruturas para capacitar os professores da rede pública sobre o tema.

Entre os desafios elencados pelos especialistas em educação financeira está a falta dessa cultura na comunidade escolar. Os educadores sentem dificuldades em ensinar a temática aos alunos. “O professor ganha mal, gasta mal e, como cidadão, não é valorizado”, afirma Cláudia, superintendente da AEF. “Como vamos fazer com que ele queira ensinar esse conteúdo? Precisamos, primeiramente, envolver o professor como cidadão.”

Capacitar os professores é o primeiro passo neste processo, mas ainda não é realidade em muitos Estados e municípios. Exceção é o Tocantins, que oferece atividades nas 425 escolas estaduais, espalhadas em 149 municípios. Uma rede de 150 mil alunos, que conta com 4 mil professores treinados para lidar com o assunto. Tanto em aulas quanto em gincanas, concursos e ações sociais.

Para a coordenadora da inclusão do tema no currículo escolar do Tocantins, Alessandra Camargo, o ideal é identificar o assunto em projetos já existentes na escola, para assim superar a resistência de alguns professores que acham que é um trabalho a mais em sala de aula. “O programa dissemina o tema em sala de aula para formar contínua e progressivamente cidadãos conscientes e atuantes em sua vida financeira desde as primeiras fases escolares.”

Em projeto semelhante, a Secretaria Municipal de Educação de Bagé (RS) pretende inserir a temática no currículo das 64 escolas de educação infantil e de ensino fundamental da cidade, atingindo os 3 mil alunos da rede a partir de 2019. “A criança tem peso no momento de decisão de compra. Por isso, queremos usar essa influência para auxiliar a família a consumir de maneira mais consciente”, diz a secretária de Educação de Bagé, Adriana Vieira Lara. No momento, o projeto está em fase de capacitação de todos os professores da rede.

Em Estados em que as Secretarias de Educação não fazem programas específicos, as escolas contam com parcerias de instituições preocupadas com o ensino de finanças e planejamento pessoal para crianças e jovens. É o caso de São Paulo. O Estado participou do projeto-piloto da Enef em 2010, mas não continuou com o programa. Segundo informações da assessoria de imprensa da Secretaria de Educação, o conteúdo está presente na matriz curricular, inserido na disciplina de matemática, e há um estímulo para que as escolas participem de iniciativas na área. Mas não foram desenvolvidos até agora cursos específicos para capacitar o professor neste assunto.

O ensino do tema não se restringe à matemática.“A Base não coloca o ensino de educação financeira de forma pontual, em uma matéria. É um contexto natural, constante em diferentes áreas”, diz o professor Ruy Cesar Pietropaolo, co-autor do atual texto da BNCC. Dessa forma, não há a necessidade de criar uma disciplina específica para o assunto. O que a Base exige é o que tema seja trabalhado nas diversas atividades das escolas.

7 coisas que você precisa saber sobre a Educação Financeira nas escolas 

  • Desde dezembro de 2017, o tema passou a ser obrigatório no currículo do ensino fundamental
  • No ensino médio, o assunto não é obrigatório, porque a Base Nacional Comum Curricular ainda está em discussão
  • A educação financeira não é uma disciplina específica. É um tema, assim como educação ambiental, sexual e para o trânsito
  • O conteúdo não deve ser abordado somente em matemática
  • A temática deve ser trabalhada na grade de diversas disciplinas e áreas do conhecimento, como história e língua portuguesa
  • O objetivo é que as crianças e adolescentes aprendam a administrar seus gastos, para que no futuro tenham uma vida saudável financeiramente
  • O aprendizado visa a uma prática de consumo consciente, diferenciando vontades de necessidades

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Coordenação e Execução dos Programas
MEMBROS DO COMITÊ NACIONAL DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA (CONEF)




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    ALTO CONTRASTE