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Valor Econômico: Educação financeira entra em nova fase no currículo escolar

Valor Econômico: Educação financeira entra em nova fase no currículo escolar

150 150 ENEF

14/05/2018 às 05h00

Por Adriana Cotias | De São Paulo

Claudio Belli/Valor
Pike, professor de “Economics”, do Colégio Pio XII: noções de contas públicas antes de chegar ao orçamento familiar

No alto dos seus 15 anos, Maria Luiza da Costa Tavolari, apresenta o orçamento familiar aos colegas de classe. Parte de uma renda fictícia de R$ 25 mil, conforme proposto no exercício, para listar despesas da casa, como conta de luz, água, impostos e alimentação, bem como os gastos com transporte, saúde e mensalidade escolar.

“Eu achava que água e luz fossem mais caros e o que me impressionou foi o [custo do] IPVA e do seguro saúde, pois meus pais também ajudam meus avós”, comenta. Questionada sobre que despesas sugeriria cortar numa situação de aperto, ela cita concertos, teatros ou as idas ao cinema, sem pestanejar. “Se não sobra dinheiro, tem que tirar o que não é essencial. Eu posso não ir ao cinema e assistir aos filmes que têm no Netflix.”

Ter uma visão ampla dos hábitos de consumo é importante para ajudar a família em momentos mais difíceis, diz a colega de classe Marcela Correa Maldonado. “Assim, podemos fazer melhor quando estivermos mais velhos.” Já Luiz Eduardo Sampaio Góes Costa, de 15 anos, conta que sua consciência financeira vem do incentivo que vem de casa de não fazer gastos exagerados, saber que cada coisa tem um preço e que “se você sempre estiver no limite, quando precisar para uma emergência não vai ter o dinheiro”, diz. Com a mesada que recebe há cinco anos, ele sabe desde cedo que se quiser comprar um jogo eletrônico, por exemplo, vai ter que poupar antes de comprar o almejado “game”.

Tais reflexões ocorrem após os alunos participarem de mais uma aula de “Economics” do professor Raymond Pike, no Colégio Franciscano Pio XII, localizado no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo. A disciplina, toda em inglês, faz parte da programação para alunos do “High School”, num convênio com a Universidade do Missouri, em Columbia (EUA). Após o ciclo de três anos, os alunos recebem dois certificados, conta a coordenadora Heloisa Parciasepe. Em Economics, os princípios de educação financeira, já contemplados no ensino fundamental para alunos do sexto ao oitavo ano, recebem uma nova abordagem.

Na aula acompanhada pela reportagem, Pike parte das contas públicas dos Estados Unidos e da definição de bens públicos e privados para depois fazer relações com o orçamento doméstico. Quantifica os gastos federais do governo americano para falar de política fiscal, impostos e do peso da seguridade social e da saúde no bolo. E como o país mais gasta do que arrecada, o conceito de endividamento com emissão de bônus, pagando juros aos investidores como contrapartida, também compõe o tema do dia, em comparações com a realidade brasileira. “No começo, eles achavam que isso tudo não tinha a ver com a vida deles, mas aos poucos entendem que uma hora vão começar a pagar impostos e vai ter impacto”, diz o professor.

É um conteúdo complexo para pessoas tão jovens, mas é assim que se constrói o repertório do dinheiro. “Quando se olha as melhores práticas lá fora, a literatura sugere que as primeiras idades são fundamentais para preparar o cidadão do ponto de vista da educação financeira”, diz Fábio Henrique de Sousa Coelho, diretor-superintendente da Previc e atual presidente do Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef).

Desde o início do calendário escolar deste ano, as instituições de ensino brasileiras começaram a se adequar à nova diretriz da Base Nacional Curricular (BNCC), que classificou a educação financeira como habilidade prioritária para crianças e jovens dos ciclos médio e fundamental. Pelas dimensões continentais do país, Coelho diz que vai levar algum tempo para que a iniciativa esteja amplamente disseminada, mas entende que esse não deixa de ser um marco.

Passados oito anos que a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) foi definida – como parte da rede internacional supervisionada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) -, o piloto feito com o Banco Mundial envolvendo 25 mil alunos de mais de 800 escolas em cinco estados e mais o Distrito Federal agora vai medir o impacto das ações de educação financeira naquelas crianças que entraram na vida adulta, antecipa Coelho.

Das iniciativas reportadas ao mapeamento da AEF Brasil, 78% estão em escolas públicas

Conforme a segunda edição do mapeamento feito pela Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), entre as iniciativas reportadas em escolas, 78% estão em instituições públicas, com o conteúdo incluído de forma transversal, ou seja, em mais de uma disciplina, na grade. Matemática (82%), língua portuguesa (49%), história (42%) e geografia (40%) é que lideram a abordagem.

Realizada pela Plano CDE entre fevereiro e março, uma base de 323 escolas, secretarias e professores responderam à pesquisa. Em 80% dos casos, o conteúdo é efetivo para mais da metade dos alunos. Uma fatia de 56% conta com apoio das secretarias de educação estaduais, mas essa estatística é inflada pelo Tocantins, que responde por 69% das iniciativas. Em contrapartida, no Rio Grande do Sul não há nenhum suporte do Estado ou das secretarias municipais às ações de educação financeira reportadas.

O Tocantins fez parte do projeto piloto. Lá houve o envolvimento da secretaria do Estado que se mostrou presente no desenho pedagógico e fez investimentos em material didático, puxando a estatística da região Norte para cima, diz Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil. “Onde a semente foi plantada, ela frutificou. O Tocantins é o Estado que tem o ensino de educação financeira universalizado, em todas as escolas públicas.”

Conforme relata, não é incomum encontrar certa resistência para o tema, pois alguns entes consideram haver questões mais urgentes para encaminhar, como deficiências de infraestrutura em instituições de ensino do Amazonas, onde faltam até banheiros, ou a violência sexual em algumas cidades do Pará. E com muitos professores da rede pública mal remunerados e endividados, eles também não se sentem capazes de ser os porta-vozes do assunto.

Um dado que chama a atenção na pesquisa é que, no conjunto das unidades da federação, só 30% dos professores que já tratam da educação financeira em classe tiveram alguma capacitação. O tema está, porém, presente em 77% das reuniões de planejamento das escolas. “Os canais de formação gratuita não estão chegando aos educadores, há muito profissional sem educação formal, atuando só na boa vontade”, diz Claudia.

Desenvolvida em parceria com a TV Escola, a plataforma de educação à distância, a ser lançada nesta semana, traz ferramentas interativas que reúnem textos, vídeos e atividades de verificação, num curso de quatro módulos independentes. O conteúdo, com 40 horas, é voltado para professores dos ensinos fundamental e médio e ao educador social. O material da Enef estará disponível on-line (www.vidaedinheiro.com.br).

Tomando-se como base os resultados do projeto piloto, Claudia diz que se as 27 secretarias de Estado, que passaram a ser membros do Conef, levarem o plano de educação financeira aos 5,6 mil municípios do país até 2019, em um ano os primeiros impactos começam a aparecer. Cinco anos após o primeiro mapeamento, as práticas estão melhor disseminadas. “Há um tempo de maturação para todos os atores envolvidos, sobretudo porque educação financeira é puro comportamento.”

Considerando as iniciativas de educação financeira também fora dos bancos escolares, a radiografia da AEF Brasil identificou mais de 1,3 mil instituições em todo o Brasil que se dedicam ao assunto, 72% acima do levantamento de 2013. Os dados, antecipados para o Valor, vão ser apresentados hoje na abertura da quinta edição da Semana Enef, em Brasília. Na comparação com a primeira radiografia, ganharam representatividade as estratégias on-line, que já atingem cerca de 8 milhões de pessoas.

“A internet tem se mostrado útil e eficiente e provocado mudanças. Todo o portfólio do Enef é de cunho tecnológico, o que mostra que foi um tiro certeiro.”

A maior parte das iniciativas, 80%, é gratuita e sem finalidade comercial. É nesse grupo que se encaixam inclusive as estratégias de grandes bancos, como Itaú ou Bradesco, cita Claudia ou de associações como Anbima e Febraban. “Embora as instituições financeiras tenham no DNA o lucro alto, agora há a percepção de quanto maior o nível da educação, maior o índice de saneamento do sistema financeiro.”

Jogos apoiam estratégias nas escolas

“Escolha um dos produtos selecionados e pague agora”, ou “guarde esta carta e ganhe A$ 3 [três américas] no fim do jogo”. É durante um piquenique num tabuleiro colorido que pequenos consumidores, entre 6 e 10 anos, têm que decidir o que comprar para levar ao passeio. Entre as opções estão guloseimas como bolachas recheadas, pastel, refrigerante ou banana, mais barata do que o chocolate. Vence quem tiver a maior sobra de dinheiro no bolso ao término das jogadas. Vence quem tiver a maior sobra de dinheiro no bolso ao término das jogadas.

Já nas cartas de baralho do “Bons Negócios”, a brincadeira envolve estratégias para multiplicar o capital por meio da compra e venda de bens, em disputas de crianças de 10 a 14 anos. O item mais caro é o vídeo-game e quem se apegar ao produto dos sonhos de muitos meninos e meninas, fatalmente chegará ao fim do jogo com um valor menor no bolso e não vai sair vencedor. Essas atividades, desenvolvidas pelo Bank of America Merrill Lynch, com apoio de profissionais da área de ensino e especialistas em técnicas de jogos, fizeram parte de um piloto iniciado em meados de 2017 em 90 escolas dos municípios de Pindoretama, Beberibe e Cascavel, na região metropolitana de Fortaleza. O projeto, implementado pela United Way e o Instituto Brasil Solidário, beneficia cerca de 20 mil crianças e agora chega a 19 escolas da rede pública de ensino em São Paulo.

Os resultados do monitoramento respaldam o teste em novas localidades, podendo depois ser escalado para outras regiões do país ou mesmo da América Latina, diz Thiago Fernandes, responsável pela área social e de governança do banco na América Latina. No ano que vem, por exemplo, a ideia é levar a iniciativa para Santiago, no Chile. Na experiência as escolas foram separadas em três grupos: um de controle, que não recebeu o projeto, outro que teve acesso aos jogos de educação financeira, e um terceiro que combinou tabuleiros e baralhos com a formação dos educadores. Uma proporção de 77% das escolas que receberam os jogos, ou os jogos casados com treinamento melhoraram o seu índice de educação financeira. A percepção do presidente do Instituto Brasil Solidário, Luis Salvatore, é que os resultados extrapolaram a proposta inicial, com temas como a diversidade e origem histórica e regional dos alimentos levados para a aula de geografia. Ou a relação de compra e venda, margem de lucro e promoções tratados num encontro com familiares. “Era grande a expectativa de como um jogo físico seria recebido pelas novas gerações, muitos nunca tinham visto um tabuleiro, não conheciam o hábito de jogar e quem conhecia trocou o mundo virtual”, diz. “O olho no olho ajudou a estabelecer as bases de negociação, de compreensão e também auxiliou no desenvolvimento de habilidades de diálogos e cooperação.”

Para se valer do apelo lúdico e aproveitar a afinidade das crianças com a tecnologia, na Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) serão os jogos digitais que vão compor o cardápio, diz a superintendente da AEF-Brasil, Claudia Forte. Cinco mini games vão trabalhar temas como consumo, sustentabilidade, planejamento financeiro, crédito e inflação. A criança poderá criar seu avatar e será desafiada a vencer diversas fases. “É a aposta para atrair o aluno, falar a linguagem dele”, diz. Conforme exemplifica, o estudante terá que resolver dilemas como se inscrever num intercâmbio ou dividir despesas numa república para estudar numa universidade.

Após o lançamento da versão demo nesta semana, o game será testado com jogadores experientes, chegando às salas de aula numa segunda etapa.

Clique aqui e confira a reportagem.

Coordenação e Execução dos Programas
MEMBROS DO COMITÊ NACIONAL DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA (CONEF)




    FONTE
    ALTO CONTRASTE